O besouro voador

 

O Japão é um arquipélago que abrange cerca de 3.000 ilhas, com uma área 50% superior à do Estado de São Paulo, da qual cerca de 70% estão ocupados por florestas montanhescas, cuidadosamente preservadas como garantia de conservação dos 30% restantes, onde se concentra uma população numericamente equivalente (em 1988) à brasileira (115* milhões).

O Japão está sujeito a vulcões, terremotos e furacões. Não tem petróleo, nem ferro, nem carvão de boa qualidade, nem cobre, nem alumínio e outros minerais não-ferrosos essenciais à atividade industrial. O Japão não tem solo arável suficiente para alimentar sua população. O Japão só tem japoneses: cerca de 300 por km2.

Falta-lhe tudo que os manuais estipulam como condição de uma economia florescente. O economista que o avaliasse, sob parâmetros acadêmicos, teria de concluir por sua inviabilidade econômica — como o físico que, ao analisar a estrutura aerodinâmica do besouro, concluiu que ele não podia voar.

A despeito de ser uma nação vencida e esgotada há menos de 40 anos, e embora há pouco mais de 100 anos ainda estivesse à margem do mundo, fechada em uma estrutura feudal, as quatros gerações que vêm da Era Meiji (1868) para cá transformaram-na em uma das primeiras nações do cenário mundial.

Um tataravô com 113 anos de idade, remanescente daquelas eras (e deve havê-los no Japão), poderia ouvir hoje de seu netinho de 13 anos, se ele soubesse ler em inglês (e há inúmeros jovenzinhos japoneses que sabem), a seguinte passagem de um livro recém- editado por dois professores americanos, um da Universidade de Stanford, outro de Harvard:

“Em 1980 o PNB japonês foi o terceiro do mundo, e se extrapolarmos as .tendências atuais será o primeiro no ano 2000.” Com uma população que representa “metade da população americana, exporta 75 bilhões de dólares além do que importa e apresenta uma taxa de investimento e de crescimento do PNB que é o dobro das taxas americanas. O Japão dominou, um após outro, setores industriais especializados” (e — acrescentamos — tradicionalmente inexpugnáveis no mercado internacional), “eclipsando a Inglaterra em motocicletas, os americanos e alemães na produção de carros, disputando com estes e os suíços a fabricação de relógios, máquinas fotográficas e instrumentos ópticos, superando o domínio consagrado dos Estados Unidos em setores os mais diversos, como o aço, a indústria naval, a fabricação de objetos eletrônicos, pianos e zíperes” (The Art of Japanese Management — Applications for American Executives — Richard Tanner Pascale e Anthony G. Athos, 1981)

Teríamos de compreender e de compartilhar humanamente o discreto sorriso de satisfação do velhinho japonês e não haveria nada de mais se — além disso — uma indiscreta ruga de compassiva malícia budista se acentuasse ao ouvir o subtítulo que os professores deram ao seu livro. O menino poderia acrescentar, para maior deleite do tataravô que, há alguns anos, as elites japonesas concluíram, por consenso, que o programa nacional do Japão se deveria voltar para a eletrônica-informática, e que Konosuke Matsushita (85 anos), um dos maiores líderes industriais japoneses, inaugurou — em 1980 — uma escola de governo e administração tirada de seu próprio bolso (US$ 28 milhões) para, em nível superior, e seguindo os padrões de exatidão nipônicos, preparar os mais bem-dotados jovens japoneses, provenham de onde vierem, para que alcancem os mais altos níveis de conhecimento disponíveis na atualidade e indispensáveis às lideranças futuras.

Não é de admirar, portanto, que os estudantes de Administração de Lyons não estejam mais sendo mandados para os Estados Unidos para pós-graduação, mas para o Japão, mesmo porque o mesmo está sucedendo com numerosos formandos americanos. Nem há por que se admirar que estudantes para lá se dirijam, se seus professores já há muito tempo não fazem outra coisa. Assim como um físico que se preze não poderá deixar de deduzir as leis que permitem a um besouro voar, depois de haver extraído de suas teorias a conclusão que ele estava proibido de fazê-lo, os economistas, administradores, assessores, estrategistas e táticos de gerência empresarial também se acham no dever de deduzir as leis do êxito econômico do Japão.

Mormente quando, em nítido contraste, no instante mesmo em que o Japão demonstra inesgotável capacidade de poupar, de investir, de dominar a crise energética, a inflação e o desemprego, de aumentar a renda per capita, a produção, a produtividade e a exportação, a economia americana e a dos países ocidentais, de um modo geral, apresentam sintomas alarmantes de rigidez, estagnação, inviabilidade. Com a agravante de que não se pode recorrer, sequer, a chavões explicativos de choque, ou desafio. Pois os japoneses — ao contrário dos árabes — não viraram a mesa do jogo, empenhando-se, ao contrário, na mais estrita observância das regras do mercado internacional e na obstinada reiteração dos mais altos princípios de convivência econômica que aprenderam com seus mestres ocidentais e não se cansam de relembrar-lhes. Nem se pode falar em desafio, quando não partiram de uma posição de força e manifestam, na prática, a maior compreensão e disposição de cooperar com seus infortunados parceiros ocidentais, sejam eles representados por estudantes, professores, empresários ou estadistas.

O Japão joga o jogo que aprendeu com seus parceiros, não tem culpa de não ter nada economicamente a seu favor a não ser 115* milhões de japoneses.

(A Harmonia dos Contrários – Benedicto Ferri de Barros)

* 126 milhões, números de 2010.

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