Tradição e modernidade

Alguns traços fundamentais de cultura e história conferem inconfundível singularidade à nação e ao homem japonês. Elas representam uma versão sui generis da experiência humana, distinta do cosmopolitismo que presidiu a formação das nações européias desde seu início.

O Japão é a única nação que ingressa na vida internacional com uma cultura própria tão antiga quanto a ocidental, desenvolvida em mais de dois milênios de isolamento. A insularidade japonesa, jamais perturbada por invasões que resultassem em ocupação estrangeira, permitiu o desenvolvimento de um modelo de cultura, de homem e de sociedade, eminentemente autóctones — experiência histórica que nenhum outro grande agrupamento humano teve condições de realizar.

Dos primórdios lendários da fundação do “império japonês”, de Jimmu-Tennô, primeiro imperador, descendente direto de divindades protetoras do Japão, ao Imperador Hirohito, 124° da mesma linhagem, puxa-se um fio contínuo e único de história, ao qual se ligam todas as eras, tradições e sucessos da experiência japonesa. Nenhuma outra nação apresenta unidade e continuidade comparáveis.

Somente a partir da restauração do poder político e administrativo do imperador, com o início da Era Meiji, em 1868, abriu-se efetivamente e passou o Japão a participar deliberadamente da vida internacional. Hirohito, o imperador atual, hoje com 87 anos de idade, e que ascendeu ao trono em 1926, é apenas o terceiro imperador de Meiji para cá, significativa evidência de que a continuidade característica da história japonesa não foi abalada nem interrompida, mesmo depois que a nação entrou no turbulento oceano da vida internacional.

Não se pode considerar como interrupções da insularidade cultural japonesa os contatos que a partir do século XV portugueses, holandeses e ingleses, principalmente, desenvolveram com o Japão. Eles ficaram confinados a espaço e tempo reduzidos para terem alguma relevância nos rumos históricos e no estilo cultural japonês e, em seguida, provocaram maior fechamento e retração cultural dos nipônicos, que desejavam evitar a contaminação dos “bárbaros”.

Não obstante, ou exatamente por já terem então uma personalidade cultural plenamente amadurecida, esses contatos promoveram um extraordinário esforço de assimilação pragmática dos benefícios que a experiência cultural estrangeira poderia apontar: poucos anos depois de terem conhecido as naus e armas de fogo portuguesas, quando os portugueses voltaram ao Japão já encontraram os japoneses fabricando navios e armas de fogo iguais aos seüs. Apenas 37 anos depois de haver ingressado no jogo internacional, o desconhecido Japão era capaz de infligir à Rússia, considerada uma potência européia, a derrota naval de 1905.

A recuperação japonesa após 1945 e o sucesso econômico internacional corrente não são, portanto, senão uma repetição da extraordinária capacidade de assimilação e pragmatismo que a cultura confere ao homem japonês. Aparentemente, ela é capaz de absorver qualquer contribuição externa, por mais estranha que seja ao seu estilo, explorando-a com um grau de aproveitamento e levando-a a um grau de perfeição muito superiores aos obtidos por seus criadores originais.

Um exemplo atual é a modernidade urbanística e tecnológica das grandes cidades japonesas — um exemplo antigo é o de sua linguagem escrita. Os japoneses tomaram dos chineses a escrita ideográfica representada pelos caracteres kanji, mas não se demoraram a criar um silabário fonético para exprimir sua própria fala e maneiras de dizer — o hiragana — e, em seguida, novo silabário, mais simples, utilizado sobretudo para a grafia de vocábulos importados: o katakana. De tal forma que, atualmente, a escrita japonesa — kanamajiri — é uma mescla de três tipos diferentes de caracteres, onde se acrescentou o moderno sem se perder o antigo, continuando cada herança em seu devido lugar. O processo de acumulação lingüística continua, pois, quando é mais conveniente, o japonês utiliza números arábicos para paginar revistas ou indicar números de telefone.

Produz-se assim uma síntese dinâmica entre a tradição e a modernização, onde nada se perde da experiência antiga sem que se impeça a inovação.

Os templos antigos permanecem e são restaurados rigorosamente dentro de suas tradições originais. O mesmo se dá com a cerimônia do chá, o teatro Nô, as artes marciais de defesa pessoal e os arranjos florais — todos eles sujeitos a um ritual inalterável nos mínimos detalhes. Isto não os impede de conviver com o rock, os disc-jockeys e qualquer outra novidade que surja.

A conciliação dos contrários, a resolução de antinomias, é uma das características nucleares da cultura japonesa.

(A Harmonia dos Contrários – Benedicto Ferri de Barros)

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