Wa

Desenvolveram os japoneses um código de valores sociais e um código de ética pessoal completamente incompreensíveis para os ocidentais, cujos caminhos, experiências e soluções culturais foram outros, diversos, geralmente antípodas.

Essas estruturas básicas, invisíveis e inabaláveis, que presidem a natureza das instituições e seu funcionamento e ditam o caráter e o comportamento dos indivíduos, constituem o aspecto de mais difícil percepção, conhecimento e compreensão, pois são intangíveis, subjetivas e abstratas.

Assim, a forma pela qual o japonês vê a vida, a morte, o sexo, a mulher, a família, a autoridade e a pessoa, é mistério para os ocidentais. Como tais, de detecção dificílima, passíveis de avaliação errônea e de julgamentos temerários, pois é inerente ao homem de todas as latitudes e culturas, por mais relativistas, críticas e cínicas que sejam, tomar como certos e universais seus ideais, valores e atitudes, e por bárbaros, errôneos e condenáveis os que deles diferem.

Contudo, quando se afere o produto social e individual desses valores culturais, não se pode reprimir o espanto diante de sua eficácia coletiva e pessoal, impondo-se indagar até a que ponto o caminho e as soluções adotadas pela cultura japonesa, em confronto com os caminhos e soluções adotados pela cultura ocidental, não dão prova de ser aqueles superiores a estes em economia cultural — isto é, social e individual.

Os exemplos são inúmeros. O confronto pode ser feito sob todos os aspectos em que a adoção de certos valores, comandando atitudes sociais e pessoais, produzem os resultados pretendidos ou efeitos indesejados.

A cultura ocidental procurou uma acomodação entre o indivíduo e a sociedade, garantindo a autonomia da pessoa contra o arbítrio e a violência do poder, mediante uma definição cada vez mais ampla das garantias pessoais, das prerrogativas do cidadão e dos direitos do homem, de que resultou o agravamento da dicotomia e o acirramento do antagonismo entre os poderes sociais inevitáveis e a absoluta necessidade de preservação dos valores da integridade individual. A cultura japonesa desenvolveu uma solução oposta. Em lugar de conferir direitos, atribuiu obrigações.

Os japoneses recebem desde o nascimento uma herança de dívidas sociais e crescem sob um código de obrigações que não cessa de aumentar, à medida que eles se desenvolvem pessoal e socialmente. De tal maneira que, iniciando-se como devedores de seus antepassados, passam depois a devedores do pai, em seguida do mestre, depois de cada um dos seus superiores, e, assim, quanto mais ascendem, mais devedores se tornam — sendo o imperador o maior devedor de todos os japoneses. Por reciprocidade, cada japonês tenta aliviar os débitos dos que, acima deles, estão acumulados de tamanha responsabilidade.

Se se consegue compreender o circuito desta interligação, torna-se clara a reciprocidade ética que solda o primeiro ao último dos japoneses, cujos direitos decorrem, legitimamente, de que, tendo ele cumprido com sua parte de obrigações, não há como admitir que os maiores e mais altos não possam cumprir com as suas. Da ética de obrigações — por contraste com a ética de direitos — decorre a retribuição, a harmonia disciplinar livremente consentida, a solidariedade espontânea do agregado social japonês, o sentido de isonomia, ou igualdade humana de todos perante as leis, a solidariedade intrínseca dos agrupamentos sociais japoneses de qualquer nível e tamanho: seja ele uma cooperativa, seja a nação como um todo. Não se disputam direitos, nem se discutem posições: elas decorrem, por tácito consenso, das obrigações assumidas e cumpridas.

Ê evidente que a proposição da ética social neste sentido supõe e admite para cada japonês uma responsabilidade e um grau de autonomia superior ao de uma ética paternalista e impõe um grau de solidariedade superior ao de uma ética individualista — autonomia e responsabilidade estas que só podem ser suportadas pela reciprocidade social universal decorrente dessa ética. Não há anomia na sociedade japonesa. Nem advogados (segundo Peter Ross Range, apenas 11.000 para todo o Japão, contra 38.600 só para o Estado de São Paulo). Sua taxa de delinqüência é baixíssima. A de suicídios não é superior à da França e outros países europeus.

A ética de obrigações japonesas, por oposição à ética de direitos ocidental, é apenas um exemplo da diversidade de soluções culturais dadas aos problemas da vida do homem em sociedade. A cultura japonesa apresenta para todos os demais casos e circunstâncias da vida, pessoal e social, soluções originais, freqüentemente opostas às da cultura ocidental, as quais, aparentemente, produzem, por vias antípodas das que imaginamos, os resultados que pretendemos, melhor do que soubemos alcançá-los. E nesse sentido que eles chegaram antes de nós e foram mais longe nos problemas fundamentais das relações entre o homem e a terra, entre o homem e a mulher, entre o homem e o homem, entre o homem e o sexo, entre o homem e o seu corpo, entre o corpo e o espírito, e entre a vida e a morte.

O Japão representa, no perturbado, conflitante, inseguro, instável e contestatório universo das sociedades cosmopolitas contemporâneas, o exemplo singular de uma nação que conserva na íntegra uma cultura própria e original e de uma sociedade que conseguiu um admirável equilíbrio entre a disciplina e a solidariedade, entre a independência pessoal e a autoridade coletiva, entre a cooperação das massas e a responsabilidade das elites. O sentido da honra e da vergonha, individual e coletiva, é um dos traços mais fortes e sensíveis do homem japonês.

Há mais de dois milênios vivem eles em um mesmo barco, em mar extremamente difícil. Todos eles têm consciência dessas dificuldades, da precariedade da vida, do exorbitante custo da sobrevivência coletiva, e, conseqüentemente, do valor do esforço, da união do trabalho de cada qual em sua posição. Wa, harmonia, foi o primeiro princípio estabelecido pela “Constituição dos 17 artigos” do príncipe Shôtoku Taishi no ano de 604, organizando o Estado japonês. Continua sendo a palavra que melhor exprime a alma da nação e de seu povo e a que melhor explica o mistério de seu desempenho internacional: Wa realiza a síntese dos contrários.

*Wa também significa soma, total, paz, concórdia, reconciliação, unidade.

(A Harmonia dos Contrários – Benedicto Ferri de Barros)

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